Página do Paulim

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Paulo Ferreira de Moura Junior  //  Belohorizontino, computeiro, viciado em música. Estou aqui de passagem, mas não estou a passeio.

Dec 18 / 9:30pm

Sobre a campanha de respeito ao pedestre da BHTrans

Há alguns dias ouvi que a BHTrans estava lançando uma campanha de respeito ao pedestre. Em Belo Horizonte, assim como em vários lugares do país, a faixa de pedestre é algo solenemente ignorado pela maioria dos condutores, e medidas para a conscientização dos motoristas sempre são bem vindas.

Hoje vi a segunda edição do Jornal do Ônibus de Dezembro citando a campanha. A imagem abaixo mostra o que, ao meu entender, seria a parte específica para os pedestres. 

Faixa

Segundo a campanha, o pedestre que quiser atravessar uma rua na faixa de pedestre deverá:

  • aguardar na faixa antes de atravessar;
  • fazer contato visual com o motorista / motociclista;
  • estender a mão, sinalizando que quer atravessar.

A princípio, tudo bem, não é? Afinal de contas, não custa nada aos pedestres indicarem aos motoristas que querem atravessar a rua, além de ser um sinal de cordialidade no trânsito. Já que os pedestres são vulneráveis, nada melhor do que ensiná-los a aumentar a sua segurança. Infelizmente, não é bem assim.

Primeiro que essa campanha ignora o artigo 70 do Código de Trânsito Brasileiro, que diz que "[o]s pedestres que estiverem atravessando a via sobre as faixas delimitadas para esse fim terão prioridade de passagem, exceto nos locais com sinalização semafórica, onde deverão ser respeitadas as disposições deste Código". Qualquer condutor que tenha feito autoescola sabe (ou deveria saber) isso, não é nenhuma novidade. O pedestre já tem a preferência na faixa de pedestre, não precisa levantar a mão, acenar ou dar tchauzinho ou fazer a dança do tamanduá africano. Sem contar que várias faixas de pedestres já são acompanhadas de sinalização de parada obrigatória, seja no chão ou placa indicativa; se vários motoristas ignoram essas indicações, por que respeitariam um sinal de mão do pedestre?

O segundo problema dessa campanha é que ela explicita a insegurança das faixas de pedestre. Não se busca mostrar aos pedestres que a faixa é uma zona segura, que ela é território deles e que por causa disso é melhor passar na faixa do que em qualquer outro ponto da via; a campanha só evidencia que ali é um espaço onde a vida do pedestre está em risco, pois ele tem que "pedir permissão" para usá-la. Então, qual é o propósito das faixas, dado que elas precisa de um manual de instrução e que nelas os pedestres podem ser atropelados da mesma forma que em qualquer lugar da via? Já que é assim, não seria melhor eliminá-las? Pelo menos, os pedestres não teriam uma falsa ilusão de segurança e não colocariam a vida em risco. 

O terceiro problema dessa campanha, e mais grave na minha opinião, é que ela transfere a responsabilidade da segurança no trânsito para o pedestre, o lado mais fraco da equação e geralmente o que sofre mais danos. A campanha indica que o pedestre deve tomar uma série de precauções, fazer uma série de sinais para tentar usar um espaço no qual ele deveria ter preferência, ao invés de educar (e punir) os condutores, mostrando que a faixa de pedestre deve ser respeitada e que eles devem parar para dar passagem aos pedestres. Fico pensando nas várias vezes em que motoristas atropelarão pedestres e soltarão pérolas como "ah, mas o pedestre não estendeu a mão", "como eu iria saber que ele queria passar se ele nem estendeu a mão", "se ele tivesse levantado a mão eu teria parado na faixa", "nada disso teria acontecido se ela tivesse levantado a mão para passar" e por aí vai.

A meu ver, a BHTrans assume com essa campanha uma postura "pragmática". Já que os condutores não respeitam a faixa e que não dá para educá-los nem multar os infratores, que se ensina aos pedestres as técnicas para não serem atropelados. Já que a faixa de pedestre é do motorista e não serva para nada, que os pedestres façam malabarismos para utilizá-la. Já que o trânsito é caótico, violento e não há nada que possa ser feito para corrigir isso, que se tente diminuir os danos. 

Pode ser que o material direcionado para os motoristas e motociclistas tente reforçar o respeito às faixas de pedestres e que medidas sejam tomadas para garantir a segurança das faixas; porém, isso não retira o caráter deseducativo da campanha para os pedestres. Não há motivos para ela não mostrar aos pedestres seus direitos, nem para praticamente botar em seus ombros a responsabilidade pela sua segurança na faixa de pedestres. O que poderia ser uma iniciativa bacana para conscientização dos condutores e convivência harmônica no trânsito, por enquanto parece mais um "manual de sobrevivência na guerra do trânsito".

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May 18 / 8:01pm

Alguns comentários sobre a "não polêmica" envolvendo o livro "Por uma vida melhor"

Duas coisas me matam de desgosto na discussão envolvendo o livro "Por uma vida melhor". Primeiro que é totalmente equivocada (pra não dizer simplesmente mentirosa) e segundo que *não faz o menor sentido*.

Equivocada porque qualquer um, dotado do mínimo de capacidade de compreensão textual, que tivesse lido o livro entenderia perfeitamente o que a autora disse. Para os que não leram o capítulo em questão, coloco aqui o trecho:

Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar ‘os livro?’.” Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião.[...]Mais uma vez, é importante que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala.

A autora em nenhum momento advoga o fim da gramática normativa; em nenhum momento a autora despreza a gramática normativa ou a considera inútil. A autora até reforça a importância dessa gramática e ressalta a necessidade do domínio pleno da mesma! Outro fato solenemente ignorado por vários críticos é que o livro não é direcionado ao público infantil, mas ao ensino de jovens e adultos (EJA), que precisa de abordagens e metodologias distintas das adotadas ao público infantil. Então como é possível que a Dora Kramer na coluna do Estadão diga que esse livro é "resultado da celebração da ignorância, que, junto com a banalização do malfeito, vai se confirmando como uma das piores heranças do modo PT de governar"? Como o Clovis Rossi pode concluir que "é muito mais difícil ensinar o certo do que aceitar o errado com o qual o aluno chega à escola"? Como o Alexandre Garcia conseguiu afirmar que "[a]boliu-se o mérito e agora aprova-se a frase errada para não constranger"? Vou assumir que eles, assim como vários outros repórteres e comentaristas, apenas não fizeram o básico do trabalho jornalístico, que é conferir a fonte antes de escrever as colunas e matérias. Ou sejam, ao pular essa etapa essencial, serviram apenas como veículo de desinformação (e de vergonha alheia).  

Agora, mesmo que o livro fosse para o público infantil, não há nada de polêmico na afirmativa da possibilidade de se falar "os livro", porque não há nada de errado na afirmação da autora. Repetindo: Não faz sentido falar em certo e errado na língua. E isso não é opinião, ideologia ou coisa de "politicamente correto", como muitos adoram afirmar, é ciência! É exatamente por isso que essa discussão deixa irritado qualquer um que tenha estudado o mínimo de Linguística, pois já tem não sei quantos anos que esse assunto está mais do que consolidado na comunidade acadêmica! Qualquer um que estude um pouco dessa área ou tenha entrado em contato com alguma gramática descritiva vai saber de variação linguística e de uso apropriado, e que a gramática normativa é encarada como uma dessas variações. Falar em "a forma correta" para alguém com um mínimo de conhecimento da área de Linguística causa a mesma sensação de "ah, meu Deus, quanta bobeira" de alguém que defende o geocentrismo ou o criacionismo. 

Aliás, o que acho particularmente interessante é o desprezo ao conhecimento praticado pela maioria dos críticos dessa visão científica da linguagem. Ou seja, o que vale mesmo é o que foi aprendido lááááááá no ensino fundamental ou o que está escrito na gramática normativa encostada na estante, não o que é estudado e pesquisado atualmente nas universidades. Todas as teorias modernas que surgiram são "bobagens", pois o "certo" e "bom" mesmo é o que sempre se soube. Quem questiona essa visão mais do que datada da linguagem, ou melhor, que "ousa" disseminar o conhecimento científico é classificado de "assistencialista", "esquerdista", "vagabundo" e outros adjetivos. O Helio Schwartsman, um dos poucos articulistas que não caiu na histeria da crucificação do livro, disse algo muito apropriado sobre a diferença entre a gramática normativa e a linguística:

Para tentar compreender melhor o que está por trás dessa confusão, é importante ressaltar a diferença entre a perspectiva da linguística, ciência que tem por objeto a linguagem humana em seus múltiplos aspectos, e a da gramática normativa, que arrola as regras estilísticas abonadas por um determinado grupo de usuários do idioma numa determinada época (as elites brancas de olhos azuis, se é lícito utilizar a imagem consagrada pelo ex-governador de São Paulo Claúdio Lembo). Podemos dizer que a segunda está para a primeira assim como a pesquisa da etiqueta da corte bizantina está para o estudo da História. Daí não decorre, é claro, que devamos deixar de examinar a etiqueta ou ignorar suas prescrições, em especial se frequentarmos a corte do "basileus", mas é importante ter em mente que a diferença de escopo impõe duas lógicas muito diferentes.

Muito dos defensores ferrenhos da gramática normativa adotam uma série de argumentos contrários ao ensino dessa visão científica da linguagem. É quase sempre a mesma coisa:
  • "ah, mas aí as crianças / pessoas não vão saber o que deve usar":
    Como se elas fossem burras e já não fizessem isso naturalmente todo o dia, quando conversam de forma distinta com pais, professores, colegas, etc; ou seja, ao invés de mostrar que há múltiplas possibilidades e usos da linguagem mas que na escola e em outros lugares deve-se usar a variante mais formal, vamos fingir que nada disso existe e que a variante culta é a "certa" em tudo quanto é lugar e situação. 
  • "ah, mas aí vai valer qualquer coisa e ninguém vai querer aprender a gramática normativa":
    Como se o papel do professor não fosse justamente o de ensinar algo que as maioria das pessoas não sabe, a variante da gramática normativa, e de mostrar que ela é a mais usada nos ambientes acadêmicos e profissionais e que deve ser dominada por todos
  • "ah, mas estamos negando o acesso ao conhecimento àqueles que precisam":
    Como se alguém tivesse propondo o ensino da variação coloquial, algo que já é dominado pelos falantes nativos. Sem contar que a afirmação é falaciosa, pois o fato da variante popular ser válida não implica, automaticamente, que a variante culta é "errada" ou inválida.
  • ou a que eu acho mais hipócrita de todas, "ah, mas quem defende as variações linguísticas só usam a gramática normativa":
    Como se esse não fosse o exemplo mais bem acabado de tudo o que a Linguística defende: se é um ambiente formal, usa-se a variante da norma porque sabe-se que é adequada; já em outros ambientes, emprega-se outras variantes porque elas são mais apropriadas. A pessoa é livre para escolher e experimentar a melhor forma de se expressar em uma determinada situação ou contexto. Sabem a liberdade de escolha da operadora de celular? É quase isso. :-)
Muitos reclamaram da parte do preconceito linguistico, até vi comentários 'engraçadinhos' citando que apontar erros agora virou preconceito. Acho o termo extremamente adequado. A ciência derrubou o conceito de raça para humanos, mas nem por isso ela serviu para acabar com o preconceito racial, posto que o conceito de raça ainda existe como uma construção social. A linguística, através de uma abordagem científica e não dogmática da linguagem, também comprova que não há o conceito de certo ou errado na língua, mas nem por isso essa constatação serviu para acabar com a falsa idéia de que a norma culta (e suas variantes mais aceitas pela sociedade) são "a forma correta" de se expressar em qualquer lugar e situação e que pessoas que usam as variações coloquiais são "burras", "sem instrução", "pobres", "não tão esforçadas" ou "coitadinhas".  Esse preconceito é tão arraigado que nem pode ser questionado: é certo porque sempre foi certo e sempre será. 

Não compartilho da idéia que a norma culta exista somente com o propósito discriminatório, mas também não há como negar que muitos a utilizam com esse intuito. Para corroborar essa opinião, cito a Cambridge Grammar of English, página 6 (as aspas simples estão no texto original, o negrito é por minha conta):

A descriptive approach to grammar is based on observations of usage, it states how people use the grammar of a language. A prescriptive approach to grammar is based on the idea that some forms are more 'correct' or more associated with 'good usage' than others. Prescriptive rules are often social rules that are believed to mark out a speaker or a writer as educated or as belonging to a particular social class. 

Concluindo, é "bonito" de se ver que muitos dos defensores da gramática normativa são os mesmos que criticaram a recente reforma ortográfica da língua portuguesa, falando que é "bobagem" e que vão continuar usando a forma antiga. Ou seja, os mesmos que criticam a "preguiça" dos que usam as variantes informais, não querem aprender nem se atualizar. Espero que não façam algum concurso público ou vestibular a partir de 2013.

Ps.: agradeço ao Daniel Burle, Leonardo Kenji e Lila pelos links e pela discussão sobre o assunto.

Atualização (19/05/2011): um ótimo artigo do Sírio Possenti, professor do departamento de Linguista da Unicamp, acrescenta mais argumentos a essa questão. Reproduzo o trecho dos comentários que, na minha opinião, revela muita coisa nessa falsa polêmica:

PS 1 - todos os comentaristas (colunistas de jornais, de blogs e de TVs) que eu ouvi leram errado uma página (sim, era só UMA página!) do livro que deu origem à celeuma na semana passada. Minha pergunta é: se eles defendem a língua culta como meio de comunicação, como explicam que leram tão mal um texto escrito em língua culta? É no teste PISA que o Brasil, sempre tem fracassado, não é? Pois é, este foi um teste de leitura. Nosso jornalismo seria reprovado.

PS 2 - Alexandre Garcia começou um comentário irado sobre o livro em questão assim, no Bom Dia, Brasil de terça-feira: "quando eu TAVA na escola...". Uma carta de leitor que criticava a forma "os livro" dizia "ensinam os alunos DE que se pode falar errado". Uma professora entrevistada que criticou a doutrina do livro disse "a língua é ONDE nos une" e Monforte perguntou "Onde FICA as leis de concordância?". Ou seja: eles abonaram a tese do livro que estavam criticando. Só que, provavelmente, acham que falam certinho! Não se dão conta do que acontece com a língua DELES mesmos!!
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Mar 8 / 11:22am

Dia Internacional das Mulheres

Esse não é um dia de comemorações, de receber rosas murchas, presentinhos ou de ser louvada por atributos como feminilidade, sensibilidade, beleza e intuição. Essa é uma daquelas datas comemorativas que, em um mundo mais justo, não existiria. Pois nesse mundo as mulheres não seriam discriminadas no trabalho; não ganhariam menos do que os homens; não teriam que lidar com a falsa escolha entre o trabalho e a família. 

Nesse mundo, as mulheres não seriam vítimas de violência por parte dos seus maridos, namorados ou parceiros; não precisariam de leis como a Maria da Penha; seriam levadas a sério caso fossem à delegacia pedir proteção contra as ameaças de um ex-marido. 

Nesse mundo, não haveria "generocídio" sistemático de mulheres; mulheres não seriam linchadas moralmente por usar um vestido mais curto, nem seriam responsabilizadas pelo estupro por "provocar os homens"; usariam burqa ou xador por opção, não por obrigação da família ou para se proteger de ataques. 

Nesse mundo, as mulheres não teriam que ouvir de alguns homens que querem também um dia dos homens, ou que os outros 364 dias são deles. 

Ainda falta muito para que o Dia Internacional das Mulheres suma do calendário, por isso é que ele está aí: para incomodar, para nos lembrar que ainda há muito o que fazer e lutar. 

Um forte abraço para todas vocês e a minha sincera admiração.
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Jan 13 / 11:04am

'Triste cena do cotidiano' ou 'Um breve desabafo'

Uma moça com seu filho de uns quatro anos estavam parados na calçada, esperando para atravessar a rua na faixa de pedestre. Apesar deles terem a preferência, pois não havia sinal de pedestre no local, ninguém parou para dar passagem para os dois. Quando chegou a minha vez, parei antes da faixa e sinalizei para ela passar (tenho sempre que fazer isso, pois infelizmente isso não é comum). Ela agradeceu e começou a atravessar a rua na faixa de pedestre. Quando ela estava no meio da travessia, veio um motoqueiro, desviou da moça e seu filho e começou a xingá-la! 
Mas o melhor veio depois: o motoqueiro, não satisfeito de infringir a preferência do pedestre na faixa e quase atropelar a moça, fez um retorno ilegal e passou no outro lado da rua. A moça e seu filho estavam terminando de atravessar (repito novamente, na faixa de pedestre) e o querido motoqueiro desviou novamente dos dois e continuou a xingá-los! Ou seja, na cabeça do motoqueiro, é ok atravessar a faixa de pedestres e quase matar quem esteja lá. E não é só isso: também é legítimo xingar os incautos que se "arriscam" a quebrar a regra sagrada de que "pedestre não tem vez"; afinal a preferência sempre é do mais forte. 
Alguns logo vão pensar: "tinha que ser coisa de motoqueiro". Infelizmente, não é o caso: já vi essa cena de desrespeito ao pedestre se repetir inúmeras vezes com motoristas de carros, caminhões e ônibus. Eu mesmo já recebi cara feia e buzinadas ao 'forçar' a passagem nessa mesma faixa ('forçar' bem entre aspas, pois a preferência é do pedestre e o máximo que faço é tentar atravessar a rua sem ficar 'mendigando' a permissão dos motoristas).
Parando pra pensar um pouco: quantos motoristas param na faixa de pedestre e simplesmente ignoram os transeuntes? Quantos motoristas que, ao abrir o sinal, avançam na faixa e não dão tempo para o pedestre terminar de passar? Quantos motoristas quase passam por cima dos pedestres  ao entrar em garagens? Quantos motoristas insistem em parar ou até trafegar em calçadas, achando que elas são uma mera extensão da rua? Quantos motoristas reclamam dos ciclistas, falando que eles só atrapalham o trânsito? Vemos isso acontecendo quase que diariamente, mas ou ignoramos ou somos um dos que fazem isso (sempre com a desculpa na ponta da língua).
Tendo a ser otimista e achar que a situação vai melhorar, mas cenas assim mostram que o caminho é longo, muito longo. 

[Espaço reservado para os que vão falar que isso é mimimi, que o mundo é injusto mesmo, que o Brasil não tem conserto e por aí vai...]
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Dec 29 / 11:47am

Minha lista de melhores álbuns de 2009

Final do ano é sempre a mesma coisa: Papai Noel, especial do Roberto Carlos, panetone (esse ano, infelizmente, com um toque bem desagradável), amigo oculto, roupa branca e lista de melhores álbuns lançados no ano.

Pra não perder a oportunidade e por não achar que o álbum já morreu, resolvi também fazer a minha lista de melhores álbuns de 2009. Contabilizei a audição de 62 álbuns lançados nesse ano e ouvidos até hoje, mas acredito que ouvi mais do que isso, ou seja, se não me lembro é porque não me agradaram. :-D O primeiro do ano foi "Tonight: Franz Ferdinand" do Franz Ferdinand (duh) e os últimos foram "Veckatimest" do Grizzly Bear e "Alice Calixto" da Alice Calixto, passando pelos novos do Flaming Lips (Embryonic), Basement Jaxx (Scars), Maniac Street Preaches (Journal for Pragle Lovers), Röyksopp (Junior), Ney Matogrosso (Beijo Bandido), dentre vários outros. 

Mas como fazer uma lista de melhores, posto que foram lançados centenas de álbuns nesse ano e ouvi muito menos do que isso? Nunca tive pretensão de ouvir tudo o que viesse pela frente; com isso, deixo bem claro que a minha lista de melhores é produto de uma escolha totalmente parcial e subjetiva do espaço amostral: dado que escolhi os álbuns que queria ouvir, preferi obviamente as coisas que me interessavam. Então qual é o meu viés, qual é esse espaço amostral? Basicamente, ele é composto em sua maioria por música brasileira, rock alternativo / indie, R&B e música eletrônica, com espaço para outras coisas bacanas. Poderia ter ouvido mais do que isso? Certamente, mas o que deixei de fora foi ou por total esquecimento (notadamente "C_mpl_te" do Móveis Coloniais de Acaju, "Peixes, Pássaros, Pessoas" da Mariana Aydar, "Encanteria" e "Tua" da Maria Bethânia e "The Eternal" do Sonic Youth"); ou por não ser do meu interesse (como "Meu Momento" da Wanessa, "The High End Of Low" do Marilyn Manson e "World Painted Blood" do Slayer) ou então por decisão totalmente voluntária (estou olhando para você, "Zii e Zie").

Então, sem mais delongas, vamos aos vencedores. Desses 62, 9 mereceram a honra de figurar na minha lista de melhores do ano. Todos não saíram do meu iPod, foram ouvidos várias vezes e ainda não me cansei de nenhum. Os agraciados desse ano são (em ordem alfabética pelo nome do álbum):  

1. Album - Girls

O primeiro álbum do Girls, "Lust for Life" alterna músicas com clima ensolarado e clima "califórnia anos 60", com direito a múltiplos vocais que evocam diretamente os Beach Boys ("Lust For Life", "Ghostmouth" e "Big Bad Mean Motherfucker"), com momentos bem menos festivos e mais reflexivos ("Headache" e "Hellhole Ratrace"); as letras, porém, tratam de frustração, momentos perdidos e desejos não realizados. Destaque para "Lust for life"; "Laura" e "Hellhole Ratrace", cujo refrão, repetido várias vezes em um crescendo, reforça o clima geral do álbum ("And I don't wanna cry / my whole life through / I wanna do some laughing too / Some come on, come on, come on, come on / and laugh with me / And I don't wanna die / without shaking up a leg or two / I wanna do some dancing too / So come on, come on, come on, come on / and dance with me.").

 

2. Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos - Otto

Não gostei do "Sem Gravidade", o terceiro álbum do Otto: para mim, foi um balde de água fria em relação ao anterior, "Condom Black". Felizmente, depois de um hiato de 6 anos, eis que Otto retorna ao caminho apontado pelo "Condom Black" em um álbum com músicas bem distintas umas das outras, mas que consegue-se manter coeso. O caminho é diferente: menos eletrônico, com mais percussão e elementos brasileiros. Destaque para "Janaína", "Naquela Mesa" (ótima regravação da música de Sérgio Bittencourt) e "Agora Sim"

 

3. Confete e Serpentina - Maria Alcina

Pra alguns, Maria Alcina é uma bela de uma desconhecida; para outros, ela era uma cantora antiga, conhecida pelas músicas "Fio Maravilha" e "Prenda o Tadeu" e por frequentar programas de auditório como Chacrinha e Raul Gil. Hoje ela poderia estar vivendo de fazer shows em festas anos 80, mas ela preferiu o caminho da modernidade e seguir em frente. Em 2003 ela já tinha feito, junto com o grupo eletrônico Bojo, um álbum bem interessante chamado "Agora", no qual ela abraçou a música eletrônica. Em "Confete e Serpentina", ela continua na trilha, como se pode verificar na primeira música "Roendo as Unhas", mas não se prende a esse estilo e mostra que pode muito mais. Indo do samba ("Cachorro Vira-Lata"), marcha de carnaval ("Espaço Sideral") e pop ("Colapso"), passando por uma ótima regravação do sucesso do Sérgio Sampaio "Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua", a voz forte e debochada de Maria Alcina é marcante e faz toda a diferença. Ao invés de viver do passado, nesse álbum ela parece levar a sério a letra da música "Das Tripas, Coração": "Não quero só a nostalgia / Quero a alegria de outros carnavais".

 

4. It's Blitz - Yeah Yeah Yeahs

O Yeah, Yeah, Yeahs já foi criticado por muito pela sujeira sonora excessiva e a gritaria da vocalista Karen Orzolek, e que, apesar de terem criados músicas belíssimas como "Maps", eram apenas uma modinha da crítica. Em "It's A Blitz", contudo, eles provam que ainda continuam "na pista pra negócio". Com um som mais polido e dançante, fortemente influenciado pelo New Wave, eles fazem bonito em músicas como "Zero", "Heads Will Roll" e "Hysteric". Não sei quantos fãs eles perderam por essa mudança de som, mas com certeza ganharam muitos outros.

 

5. A Strange Arrangement - Mayer Hawthorne

O que esperar de um álbum de soul, feito quase que por brincadeira por um novato com a maior cara de nerd metido a cantar no estilo de ícones como Al Green e Sam Cooke? Pois bem, contrariando os prognósticos negativos, "A Strange Arrangement" é um álbum muito, muito bom. Muitos podem falar que é um álbum de neo-soul, mais um vindo na esteira do sucesso de artistas como Amy Winehouse e Duffy, mas não acho a designação justa, pois o álbum soa como se tivesse feito na década de 60, sem atualizações ou concessões: pra mim, ele está muito mais próximo de "100 Days, 100 Nights" da Sharon Jones & The Dap-Kings do que "Back to Black". Arrisco a dizer que, se a Motown tivesse descoberto esse cara, ela poderia ter facilmente anunciado esse álbum como uma gravação perdida de algum cantor desconhecido da década de 60 e que muita gente cairia fácil (me included). O mais interessante nesse álbum é que ele foi inteiramente produzido pelo Andrew Cohen (que usou a batida fórmula de "sobrenome do meio mais nome da rua onde morou"  para criar seu nome artístico): ele canta todas as músicas, tocou todos os instrumentos e fez todos os arranjos. Destaque para "Just Ain't Gonna Work Out"  "Maybe So Maybe No" e "Shine & New".

 

6. Them Crooked Vultures - Them Crooked Vultures

John Paul Jones (Led Zeppelin) no baixo e teclado; Dave Grohl (Nirvana, Foo Fighters) na bateria e Josh Homme (Queens of The Stone Age) na guitarra e vocal. Precisa falar mais alguma coisa? Precisa sim: que esse power trio fez um álbum muito bom; que o som da banda tem o dedo dos três, mas puxado um pouco mais pro QotSA (isso ocorre pelo fato do vocal ser do Josh Homme, se fosse o Dave Grohl, talvez ficasse mais puxado pro Foo Fighters); e que estou doido para que esse álbum seja o primeiro de muitos. "No One Loves Me & Neither Do I", "Elephants", "Reptiles", "Caligulove" são must-hear.

 

7. Vagarosa - Céu

"Vai pegar feito bocejo": essa é a primeira frase do álbum, entretanto, o álbum é mais fiel ao título. Algumas músicas, como "Cangote" e "Bubuia" (que conta com os vocais da Thalma de Freitas e Anelis Assumpção), até são facilmente assimiladas; no geral, "Vagarosa" é um álbum instigante, porém de apreciação lenta, que só se mostra por completo após algumas audições. Se no disco de estréia, Céu faz um tour de force por vários estilos, em "Vagarosa" ela segue o caminho da coesão, imprimindo uma assinatura bem forte e distinta em todas as faixas: eu mesmo só saquei a levada dub que permeia todo o álbum depois da terceira audição. Músicas como "Rosa Menina Rosa", uma regravação surpreendente e nada óbvia da música do Jorge Benjor, "Nascente" e "Cordão da Insônia" merecem destaque, mas esse é um álbum que deve ser ouvido por completo e de preferência em sequência.

 

8. Wilco (The Album) - Wilco

Mesmo não sendo o melhor álbum do Wilco (eu prefiro o "Yankee Hotel Foxtrot", mas há quem goste mais do "Sky Blue Sky"), pra mim é um dos melhores desse ano. Esse disco já valeria pela deliciosa "You Never Know", uma homenagem / pastiche a "My Sweet Lord" do George Harrison, mas a atmosfera mezzo country-rock, mezzo indie do álbum renderam outras músicas muito boas, como "You And I" and "Sonny Feeling". 

 

9. Wolfgang Amadeus Phoenix - Phoenix

"Wolfgang Amadeus Phoenix" é um álbum pop. Absurdamente pop. Pop até a medula. Pop de ouvir e ficar balançando os pezinhos no ritmo das músicas. Pop de ficar com vontade de sair dançando pela casa, rua, supermercado ou escritório. O álbum já começa matador: "Liztomania", a primeira música, define bem o álbum, com seu clima alegre e empolgante. A essência dançante da música é tão escancarada que um cara achou que ela era uma trilha perfeita para filmes brat pack e resolveu fazer um clipe da música montado com cenas de filmes dos anos 80; essa montagem ficou tão boa que também gerou uma resposta. "1901", a segunda, é outra música que muitos artistas dariam as vidas para terem composto algo similar. A terceira música, "Fences", segue também a mesma linha das anteriores, mas um pouco mais calma. Com uma abertura dessas, quase que seria possível achar que o Phoenix tinha gasto toda a munição e que o restante do álbum poderia ser descartado. Ledo engano: apesar do ritmo ficar mais tranquilo nas músicas anteriores, a qualidade se mantém, como se pode comprovar nas faixas "Lasso" e a última "Armistice". 

E que venha 2010, que promete bastante com álbuns novos do Goldfrapp, Vampire Weekend, Erykah Badu, Groove Armada, Massive Attack, Nneka, Arcade Fire, Radiohead, dentre vários outros.

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