Final do ano é sempre a mesma coisa: Papai Noel, especial do Roberto Carlos, panetone (esse ano, infelizmente, com um toque bem desagradável), amigo oculto, roupa branca e lista de melhores álbuns lançados no ano.
Pra não perder a oportunidade e por não achar que o álbum já morreu, resolvi também fazer a minha lista de melhores álbuns de 2009. Contabilizei a audição de 62 álbuns lançados nesse ano e ouvidos até hoje, mas acredito que ouvi mais do que isso, ou seja, se não me lembro é porque não me agradaram. :-D O primeiro do ano foi "Tonight: Franz Ferdinand" do Franz Ferdinand (duh) e os últimos foram "Veckatimest" do Grizzly Bear e "Alice Calixto" da Alice Calixto, passando pelos novos do Flaming Lips (Embryonic), Basement Jaxx (Scars), Maniac Street Preaches (Journal for Pragle Lovers), Röyksopp (Junior), Ney Matogrosso (Beijo Bandido), dentre vários outros.
Mas como fazer uma lista de melhores, posto que foram lançados centenas de álbuns nesse ano e ouvi muito menos do que isso? Nunca tive pretensão de ouvir tudo o que viesse pela frente; com isso, deixo bem claro que a minha lista de melhores é produto de uma escolha totalmente parcial e subjetiva do espaço amostral: dado que escolhi os álbuns que queria ouvir, preferi obviamente as coisas que me interessavam. Então qual é o meu viés, qual é esse espaço amostral? Basicamente, ele é composto em sua maioria por música brasileira, rock alternativo / indie, R&B e música eletrônica, com espaço para outras coisas bacanas. Poderia ter ouvido mais do que isso? Certamente, mas o que deixei de fora foi ou por total esquecimento (notadamente "C_mpl_te" do Móveis Coloniais de Acaju, "Peixes, Pássaros, Pessoas" da Mariana Aydar, "Encanteria" e "Tua" da Maria Bethânia e "The Eternal" do Sonic Youth"); ou por não ser do meu interesse (como "Meu Momento" da Wanessa, "The High End Of Low" do Marilyn Manson e "World Painted Blood" do Slayer) ou então por decisão totalmente voluntária (estou olhando para você, "Zii e Zie").
Então, sem mais delongas, vamos aos vencedores. Desses 62, 9 mereceram a honra de figurar na minha lista de melhores do ano. Todos não saíram do meu iPod, foram ouvidos várias vezes e ainda não me cansei de nenhum. Os agraciados desse ano são (em ordem alfabética pelo nome do álbum):
1. Album - Girls

O primeiro álbum do Girls, "Lust for Life" alterna músicas com clima ensolarado e clima "califórnia anos 60", com direito a múltiplos vocais que evocam diretamente os Beach Boys ("Lust For Life", "Ghostmouth" e "Big Bad Mean Motherfucker"), com momentos bem menos festivos e mais reflexivos ("Headache" e "Hellhole Ratrace"); as letras, porém, tratam de frustração, momentos perdidos e desejos não realizados. Destaque para "Lust for life"; "Laura" e "Hellhole Ratrace", cujo refrão, repetido várias vezes em um crescendo, reforça o clima geral do álbum ("And I don't wanna cry / my whole life through / I wanna do some laughing too / Some come on, come on, come on, come on / and laugh with me / And I don't wanna die / without shaking up a leg or two / I wanna do some dancing too / So come on, come on, come on, come on / and dance with me.").
2. Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos - Otto

Não gostei do "Sem Gravidade", o terceiro álbum do Otto: para mim, foi um balde de água fria em relação ao anterior, "Condom Black". Felizmente, depois de um hiato de 6 anos, eis que Otto retorna ao caminho apontado pelo "Condom Black" em um álbum com músicas bem distintas umas das outras, mas que consegue-se manter coeso. O caminho é diferente: menos eletrônico, com mais percussão e elementos brasileiros. Destaque para "Janaína", "Naquela Mesa" (ótima regravação da música de Sérgio Bittencourt) e "Agora Sim"
3. Confete e Serpentina - Maria Alcina

Pra alguns, Maria Alcina é uma bela de uma desconhecida; para outros, ela era uma cantora antiga, conhecida pelas músicas "Fio Maravilha" e "Prenda o Tadeu" e por frequentar programas de auditório como Chacrinha e Raul Gil. Hoje ela poderia estar vivendo de fazer shows em festas anos 80, mas ela preferiu o caminho da modernidade e seguir em frente. Em 2003 ela já tinha feito, junto com o grupo eletrônico Bojo, um álbum bem interessante chamado "Agora", no qual ela abraçou a música eletrônica. Em "Confete e Serpentina", ela continua na trilha, como se pode verificar na primeira música "Roendo as Unhas", mas não se prende a esse estilo e mostra que pode muito mais. Indo do samba ("Cachorro Vira-Lata"), marcha de carnaval ("Espaço Sideral") e pop ("Colapso"), passando por uma ótima regravação do sucesso do Sérgio Sampaio "Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua", a voz forte e debochada de Maria Alcina é marcante e faz toda a diferença. Ao invés de viver do passado, nesse álbum ela parece levar a sério a letra da música "Das Tripas, Coração": "Não quero só a nostalgia / Quero a alegria de outros carnavais".
4. It's Blitz - Yeah Yeah Yeahs

O Yeah, Yeah, Yeahs já foi criticado por muito pela sujeira sonora excessiva e a gritaria da vocalista Karen Orzolek, e que, apesar de terem criados músicas belíssimas como "Maps", eram apenas uma modinha da crítica. Em "It's A Blitz", contudo, eles provam que ainda continuam "na pista pra negócio". Com um som mais polido e dançante, fortemente influenciado pelo New Wave, eles fazem bonito em músicas como "Zero", "Heads Will Roll" e "Hysteric". Não sei quantos fãs eles perderam por essa mudança de som, mas com certeza ganharam muitos outros.
5. A Strange Arrangement - Mayer Hawthorne

O que esperar de um álbum de soul, feito quase que por brincadeira por um novato com a maior cara de nerd metido a cantar no estilo de ícones como Al Green e Sam Cooke? Pois bem, contrariando os prognósticos negativos, "A Strange Arrangement" é um álbum muito, muito bom. Muitos podem falar que é um álbum de neo-soul, mais um vindo na esteira do sucesso de artistas como Amy Winehouse e Duffy, mas não acho a designação justa, pois o álbum soa como se tivesse feito na década de 60, sem atualizações ou concessões: pra mim, ele está muito mais próximo de "100 Days, 100 Nights" da Sharon Jones & The Dap-Kings do que "Back to Black". Arrisco a dizer que, se a Motown tivesse descoberto esse cara, ela poderia ter facilmente anunciado esse álbum como uma gravação perdida de algum cantor desconhecido da década de 60 e que muita gente cairia fácil (me included). O mais interessante nesse álbum é que ele foi inteiramente produzido pelo Andrew Cohen (que usou a batida fórmula de "sobrenome do meio mais nome da rua onde morou" para criar seu nome artístico): ele canta todas as músicas, tocou todos os instrumentos e fez todos os arranjos. Destaque para "Just Ain't Gonna Work Out" "Maybe So Maybe No" e "Shine & New".
6. Them Crooked Vultures - Them Crooked Vultures

John Paul Jones (Led Zeppelin) no baixo e teclado; Dave Grohl (Nirvana, Foo Fighters) na bateria e Josh Homme (Queens of The Stone Age) na guitarra e vocal. Precisa falar mais alguma coisa? Precisa sim: que esse power trio fez um álbum muito bom; que o som da banda tem o dedo dos três, mas puxado um pouco mais pro QotSA (isso ocorre pelo fato do vocal ser do Josh Homme, se fosse o Dave Grohl, talvez ficasse mais puxado pro Foo Fighters); e que estou doido para que esse álbum seja o primeiro de muitos. "No One Loves Me & Neither Do I", "Elephants", "Reptiles", "Caligulove" são must-hear.
7. Vagarosa - Céu

"Vai pegar feito bocejo": essa é a primeira frase do álbum, entretanto, o álbum é mais fiel ao título. Algumas músicas, como "Cangote" e "Bubuia" (que conta com os vocais da Thalma de Freitas e Anelis Assumpção), até são facilmente assimiladas; no geral, "Vagarosa" é um álbum instigante, porém de apreciação lenta, que só se mostra por completo após algumas audições. Se no disco de estréia, Céu faz um tour de force por vários estilos, em "Vagarosa" ela segue o caminho da coesão, imprimindo uma assinatura bem forte e distinta em todas as faixas: eu mesmo só saquei a levada dub que permeia todo o álbum depois da terceira audição. Músicas como "Rosa Menina Rosa", uma regravação surpreendente e nada óbvia da música do Jorge Benjor, "Nascente" e "Cordão da Insônia" merecem destaque, mas esse é um álbum que deve ser ouvido por completo e de preferência em sequência.
8. Wilco (The Album) - Wilco

Mesmo não sendo o melhor álbum do Wilco (eu prefiro o "Yankee Hotel Foxtrot", mas há quem goste mais do "Sky Blue Sky"), pra mim é um dos melhores desse ano. Esse disco já valeria pela deliciosa "You Never Know", uma homenagem / pastiche a "My Sweet Lord" do George Harrison, mas a atmosfera mezzo country-rock, mezzo indie do álbum renderam outras músicas muito boas, como "You And I" and "Sonny Feeling".
9. Wolfgang Amadeus Phoenix - Phoenix

"Wolfgang Amadeus Phoenix" é um álbum pop. Absurdamente pop. Pop até a medula. Pop de ouvir e ficar balançando os pezinhos no ritmo das músicas. Pop de ficar com vontade de sair dançando pela casa, rua, supermercado ou escritório. O álbum já começa matador: "Liztomania", a primeira música, define bem o álbum, com seu clima alegre e empolgante. A essência dançante da música é tão escancarada que um cara achou que ela era uma trilha perfeita para filmes brat pack e resolveu fazer um clipe da música montado com cenas de filmes dos anos 80; essa montagem ficou tão boa que também gerou uma resposta. "1901", a segunda, é outra música que muitos artistas dariam as vidas para terem composto algo similar. A terceira música, "Fences", segue também a mesma linha das anteriores, mas um pouco mais calma. Com uma abertura dessas, quase que seria possível achar que o Phoenix tinha gasto toda a munição e que o restante do álbum poderia ser descartado. Ledo engano: apesar do ritmo ficar mais tranquilo nas músicas anteriores, a qualidade se mantém, como se pode comprovar nas faixas "Lasso" e a última "Armistice".
E que venha 2010, que promete bastante com álbuns novos do Goldfrapp, Vampire Weekend, Erykah Badu, Groove Armada, Massive Attack, Nneka, Arcade Fire, Radiohead, dentre vários outros.