Página do Paulim

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Paulo Ferreira de Moura Junior  //  Belohorizontino, computeiro, viciado em música. Estou aqui de passagem, mas não estou a passeio.

May 18 / 8:01pm

Alguns comentários sobre a "não polêmica" envolvendo o livro "Por uma vida melhor"

Duas coisas me matam de desgosto na discussão envolvendo o livro "Por uma vida melhor". Primeiro que é totalmente equivocada (pra não dizer simplesmente mentirosa) e segundo que *não faz o menor sentido*.

Equivocada porque qualquer um, dotado do mínimo de capacidade de compreensão textual, que tivesse lido o livro entenderia perfeitamente o que a autora disse. Para os que não leram o capítulo em questão, coloco aqui o trecho:

Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar ‘os livro?’.” Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião.[...]Mais uma vez, é importante que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala.

A autora em nenhum momento advoga o fim da gramática normativa; em nenhum momento a autora despreza a gramática normativa ou a considera inútil. A autora até reforça a importância dessa gramática e ressalta a necessidade do domínio pleno da mesma! Outro fato solenemente ignorado por vários críticos é que o livro não é direcionado ao público infantil, mas ao ensino de jovens e adultos (EJA), que precisa de abordagens e metodologias distintas das adotadas ao público infantil. Então como é possível que a Dora Kramer na coluna do Estadão diga que esse livro é "resultado da celebração da ignorância, que, junto com a banalização do malfeito, vai se confirmando como uma das piores heranças do modo PT de governar"? Como o Clovis Rossi pode concluir que "é muito mais difícil ensinar o certo do que aceitar o errado com o qual o aluno chega à escola"? Como o Alexandre Garcia conseguiu afirmar que "[a]boliu-se o mérito e agora aprova-se a frase errada para não constranger"? Vou assumir que eles, assim como vários outros repórteres e comentaristas, apenas não fizeram o básico do trabalho jornalístico, que é conferir a fonte antes de escrever as colunas e matérias. Ou sejam, ao pular essa etapa essencial, serviram apenas como veículo de desinformação (e de vergonha alheia).  

Agora, mesmo que o livro fosse para o público infantil, não há nada de polêmico na afirmativa da possibilidade de se falar "os livro", porque não há nada de errado na afirmação da autora. Repetindo: Não faz sentido falar em certo e errado na língua. E isso não é opinião, ideologia ou coisa de "politicamente correto", como muitos adoram afirmar, é ciência! É exatamente por isso que essa discussão deixa irritado qualquer um que tenha estudado o mínimo de Linguística, pois já tem não sei quantos anos que esse assunto está mais do que consolidado na comunidade acadêmica! Qualquer um que estude um pouco dessa área ou tenha entrado em contato com alguma gramática descritiva vai saber de variação linguística e de uso apropriado, e que a gramática normativa é encarada como uma dessas variações. Falar em "a forma correta" para alguém com um mínimo de conhecimento da área de Linguística causa a mesma sensação de "ah, meu Deus, quanta bobeira" de alguém que defende o geocentrismo ou o criacionismo. 

Aliás, o que acho particularmente interessante é o desprezo ao conhecimento praticado pela maioria dos críticos dessa visão científica da linguagem. Ou seja, o que vale mesmo é o que foi aprendido lááááááá no ensino fundamental ou o que está escrito na gramática normativa encostada na estante, não o que é estudado e pesquisado atualmente nas universidades. Todas as teorias modernas que surgiram são "bobagens", pois o "certo" e "bom" mesmo é o que sempre se soube. Quem questiona essa visão mais do que datada da linguagem, ou melhor, que "ousa" disseminar o conhecimento científico é classificado de "assistencialista", "esquerdista", "vagabundo" e outros adjetivos. O Helio Schwartsman, um dos poucos articulistas que não caiu na histeria da crucificação do livro, disse algo muito apropriado sobre a diferença entre a gramática normativa e a linguística:

Para tentar compreender melhor o que está por trás dessa confusão, é importante ressaltar a diferença entre a perspectiva da linguística, ciência que tem por objeto a linguagem humana em seus múltiplos aspectos, e a da gramática normativa, que arrola as regras estilísticas abonadas por um determinado grupo de usuários do idioma numa determinada época (as elites brancas de olhos azuis, se é lícito utilizar a imagem consagrada pelo ex-governador de São Paulo Claúdio Lembo). Podemos dizer que a segunda está para a primeira assim como a pesquisa da etiqueta da corte bizantina está para o estudo da História. Daí não decorre, é claro, que devamos deixar de examinar a etiqueta ou ignorar suas prescrições, em especial se frequentarmos a corte do "basileus", mas é importante ter em mente que a diferença de escopo impõe duas lógicas muito diferentes.

Muito dos defensores ferrenhos da gramática normativa adotam uma série de argumentos contrários ao ensino dessa visão científica da linguagem. É quase sempre a mesma coisa:
  • "ah, mas aí as crianças / pessoas não vão saber o que deve usar":
    Como se elas fossem burras e já não fizessem isso naturalmente todo o dia, quando conversam de forma distinta com pais, professores, colegas, etc; ou seja, ao invés de mostrar que há múltiplas possibilidades e usos da linguagem mas que na escola e em outros lugares deve-se usar a variante mais formal, vamos fingir que nada disso existe e que a variante culta é a "certa" em tudo quanto é lugar e situação. 
  • "ah, mas aí vai valer qualquer coisa e ninguém vai querer aprender a gramática normativa":
    Como se o papel do professor não fosse justamente o de ensinar algo que as maioria das pessoas não sabe, a variante da gramática normativa, e de mostrar que ela é a mais usada nos ambientes acadêmicos e profissionais e que deve ser dominada por todos
  • "ah, mas estamos negando o acesso ao conhecimento àqueles que precisam":
    Como se alguém tivesse propondo o ensino da variação coloquial, algo que já é dominado pelos falantes nativos. Sem contar que a afirmação é falaciosa, pois o fato da variante popular ser válida não implica, automaticamente, que a variante culta é "errada" ou inválida.
  • ou a que eu acho mais hipócrita de todas, "ah, mas quem defende as variações linguísticas só usam a gramática normativa":
    Como se esse não fosse o exemplo mais bem acabado de tudo o que a Linguística defende: se é um ambiente formal, usa-se a variante da norma porque sabe-se que é adequada; já em outros ambientes, emprega-se outras variantes porque elas são mais apropriadas. A pessoa é livre para escolher e experimentar a melhor forma de se expressar em uma determinada situação ou contexto. Sabem a liberdade de escolha da operadora de celular? É quase isso. :-)
Muitos reclamaram da parte do preconceito linguistico, até vi comentários 'engraçadinhos' citando que apontar erros agora virou preconceito. Acho o termo extremamente adequado. A ciência derrubou o conceito de raça para humanos, mas nem por isso ela serviu para acabar com o preconceito racial, posto que o conceito de raça ainda existe como uma construção social. A linguística, através de uma abordagem científica e não dogmática da linguagem, também comprova que não há o conceito de certo ou errado na língua, mas nem por isso essa constatação serviu para acabar com a falsa idéia de que a norma culta (e suas variantes mais aceitas pela sociedade) são "a forma correta" de se expressar em qualquer lugar e situação e que pessoas que usam as variações coloquiais são "burras", "sem instrução", "pobres", "não tão esforçadas" ou "coitadinhas".  Esse preconceito é tão arraigado que nem pode ser questionado: é certo porque sempre foi certo e sempre será. 

Não compartilho da idéia que a norma culta exista somente com o propósito discriminatório, mas também não há como negar que muitos a utilizam com esse intuito. Para corroborar essa opinião, cito a Cambridge Grammar of English, página 6 (as aspas simples estão no texto original, o negrito é por minha conta):

A descriptive approach to grammar is based on observations of usage, it states how people use the grammar of a language. A prescriptive approach to grammar is based on the idea that some forms are more 'correct' or more associated with 'good usage' than others. Prescriptive rules are often social rules that are believed to mark out a speaker or a writer as educated or as belonging to a particular social class. 

Concluindo, é "bonito" de se ver que muitos dos defensores da gramática normativa são os mesmos que criticaram a recente reforma ortográfica da língua portuguesa, falando que é "bobagem" e que vão continuar usando a forma antiga. Ou seja, os mesmos que criticam a "preguiça" dos que usam as variantes informais, não querem aprender nem se atualizar. Espero que não façam algum concurso público ou vestibular a partir de 2013.

Ps.: agradeço ao Daniel Burle, Leonardo Kenji e Lila pelos links e pela discussão sobre o assunto.

Atualização (19/05/2011): um ótimo artigo do Sírio Possenti, professor do departamento de Linguista da Unicamp, acrescenta mais argumentos a essa questão. Reproduzo o trecho dos comentários que, na minha opinião, revela muita coisa nessa falsa polêmica:

PS 1 - todos os comentaristas (colunistas de jornais, de blogs e de TVs) que eu ouvi leram errado uma página (sim, era só UMA página!) do livro que deu origem à celeuma na semana passada. Minha pergunta é: se eles defendem a língua culta como meio de comunicação, como explicam que leram tão mal um texto escrito em língua culta? É no teste PISA que o Brasil, sempre tem fracassado, não é? Pois é, este foi um teste de leitura. Nosso jornalismo seria reprovado.

PS 2 - Alexandre Garcia começou um comentário irado sobre o livro em questão assim, no Bom Dia, Brasil de terça-feira: "quando eu TAVA na escola...". Uma carta de leitor que criticava a forma "os livro" dizia "ensinam os alunos DE que se pode falar errado". Uma professora entrevistada que criticou a doutrina do livro disse "a língua é ONDE nos une" e Monforte perguntou "Onde FICA as leis de concordância?". Ou seja: eles abonaram a tese do livro que estavam criticando. Só que, provavelmente, acham que falam certinho! Não se dão conta do que acontece com a língua DELES mesmos!!

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